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Resumo muito breve
Rússia, fevereiro de 1882. Num tribunal, juízes leram no jornal que o colega Ivan Ilitch morrera aos 45 anos e logo pensaram nas promoções que a vaga permitiria.
Ivan fizera carreira na Justiça imitando pessoas importantes e buscando uma vida agradável e correta. Casou-se com Prascóvia, mas logo vieram as brigas, e ele se refugiou no trabalho e nas cartas.
Mais tarde, conseguiu um cargo bem pago e decorou com orgulho um novo apartamento. Ao subir numa escada, escorregou e bateu o lado do corpo. Logo surgiram um gosto estranho na boca e uma dor constante. Os médicos não diziam se o caso era perigoso. Ivan enfraqueceu e compreendeu que estava morrendo.
A família fingia que ele estava apenas doente, e essa mentira o atormentava. Só o criado Guerássim o tratava com simplicidade e segurava suas pernas por noites inteiras.
Ivan relembrou a vida e viu que só a infância tivera alegria verdadeira. Suspeitou que vivera de modo errado e gritou durante três dias. Quando o filho beijou sua mão chorando, sentiu pena dele e da mulher e quis pedir perdão. Então o medo sumiu.
E a dor? ... Para onde foi? Eh, onde estás, minha dor? ... Que seja a dor. E a morte? Onde está? ... Em lugar da morte, havia luz. — Então é isto! ... Que alegria!
Pouco depois, Ivan parou de respirar e morreu.
Resumo detalhado por capítulos
Os títulos dos capítulos são editoriais: no original, os capítulos são apenas numerados.
Capítulo 1. A notícia da morte e a visita de pêsames de Piotr Ivânovitch
Durante um intervalo de julgamento, alguns funcionários conversavam no tribunal, enquanto Piotr Ivânovitch, colega deles, examinava um jornal recém-chegado.
Piotr anunciou a morte de Ivan Ilitch Golovin, colega dos presentes, que havia adoecido e morrera em 4 de fevereiro de 1882, aos 45 anos.
O anúncio fora publicado por Prascóvia Fiódorovna Golovina, sua esposa, e informava também o horário do funeral.
Os colegas pensaram nas promoções que a vaga permitiria. Piotr viu uma oportunidade de ajudar o cunhado. As visitas de pêsames lhes pareceram obrigações incômodas, acompanhadas de um alívio que todos sentiram:
o próprio fato da morte de um conhecido tão próximo despertou como de costume, em cada um que teve dela conhecimento, um sentimento de alegria pelo fato de que morrera um outro e não ele.
À noite, Piotr foi à casa do morto. Um colega lhe sugeriu uma partida de cartas depois da cerimônia. Diante do caixão, Piotr fez o sinal da cruz, mas o rosto do amigo lhe causou desconforto. Ali também estava Guerássim, ajudante de copeiro que cuidara de Ivan durante a doença.
A viúva levou Piotr à sala e relatou que Ivan gritara durante três dias, consciente até perto do fim. Piotr temeu passar pelo mesmo, mas logo afastou a ideia. Entre lágrimas e decisões sobre o enterro, ela quis saber se poderia receber mais dinheiro do Tesouro. Como ele não encontrou uma solução, encerrou a visita. Piotr viu os filhos do morto e participou da cerimônia sem olhar novamente o corpo. Ao ajudá-lo a sair, Guerássim disse que todos morreriam. Piotr sentiu alívio ao respirar o ar da rua e seguiu para a casa de um colega, onde ainda conseguiu participar do jogo de cartas.
Capítulo 2. A história da vida de Ivan Ilitch: origem, carreira e casamento
Ivan era o segundo de três filhos de um funcionário de carreira. Inteligente, alegre e sociável, estudara Direito e tomara como referência as pessoas de posição elevada. Quando descobria que elas praticavam atos que antes lhe causavam vergonha, deixava de se preocupar com esses atos. Depois de formado, conseguiu, por intermédio do pai, um emprego junto a um governador. Durante cinco anos, cumpriu suas tarefas com rigor e participou dos divertimentos da sociedade local. Com a reforma judiciária, aceitou ser juiz de instrução em outra província. Gostou da autoridade do cargo e aprendeu a transformar os casos em documentos regulares, afastando deles as questões pessoais e cumprindo as formalidades.
Na nova cidade, casou-se com Prascóvia, que lhe agradava e pertencia a uma família respeitável. A convivência foi feliz até a gravidez, quando começaram as exigências, os ciúmes e as discussões. Ivan passou a se proteger dos conflitos dedicando mais tempo ao trabalho. Esperava do casamento conforto doméstico e uma aparência social correta; quando encontrava contrariedades, refugiava-se no serviço. Tornou-se suplente de promotor e, depois, promotor em outra província. As despesas aumentaram, morreram filhos e a hostilidade entre os esposos cresceu. Restaram uma filha e um menino. Ivan concentrou seus interesses na carreira, nos amigos e nas cartas, convencido de que continuava levando uma vida agradável e adequada.
Capítulo 3. A nova nomeação, o apartamento e a queda fatídica
Depois de dezessete anos de casamento, Ivan esperava uma nomeação importante, mas outro funcionário foi escolhido. Protestou, entrou em conflito com os superiores e acabou prejudicado novamente. Em 1880, sentiu-se abandonado, endividado e mal remunerado. Para reduzir as despesas, passou o verão com a família na casa do cunhado. Longe do trabalho, sofreu uma angústia intensa e decidiu viajar a Petersburgo para conseguir um cargo de cinco mil rublos, mesmo fora da Justiça.
Durante a viagem, soube de mudanças na direção do ministério. Um amigo favorecido por elas lhe prometeu ajuda. Em uma semana, Ivan obteve uma nomeação no próprio Ministério da Justiça, com o salário desejado, uma ajuda de custo e uma posição acima da dos antigos colegas. Voltou satisfeito e esqueceu as ofensas anteriores. Prascóvia se alegrou, e os dois fizeram planos semelhantes para a nova residência. A concordância os aproximou temporariamente. Ivan viajou sozinho para assumir o cargo e preparar o apartamento antes da chegada da família.
Escolheu um apartamento amplo e se dedicou à decoração, comprando móveis usados, objetos antigos e tecidos que lhe pareciam elegantes. A instalação o absorveu tanto que pensava nas cortinas durante as sessões do tribunal. Ao subir numa escada para mostrar a um trabalhador como queria o serviço, escorregou. Conseguiu se segurar, mas bateu o lado do corpo numa moldura. A dor diminuiu logo, e ele tratou o acidente como um pequeno machucado, orgulhoso de sua agilidade.
A família admirou a casa pronta. Instalados, retomaram as visitas, os jantares e as discussões domésticas. Ivan manteve uma rotina rigorosa no tribunal e preferiu as partidas de uíste aos demais divertimentos. Os Golovin afastaram conhecidos pobres e receberam pessoas importantes. Um jovem rico, juiz de instrução, começou a cortejar a filha, e os pais consideraram favoravelmente a possibilidade de casamento entre os dois.
Capítulo 4. O início da doença, os médicos e o isolamento do doente
Ivan começou a sentir um gosto estranho na boca e um incômodo no lado esquerdo do abdômen. A sensação se tornou constante, e sua irritação provocou novas brigas durante as refeições. Prascóvia passou a considerá-lo responsável pela infelicidade dela e exigiu que procurasse um médico. Na consulta, Ivan encontrou uma solenidade semelhante à que ele próprio assumia diante dos acusados. O médico discutiu hipóteses sobre o rim e o intestino, mas não respondeu claramente à única pergunta que importava ao paciente: se sua condição era perigosa.
Saiu convencido de que estava muito doente e ressentido com a indiferença do médico. Em casa, a mulher e a filha não ouviram seu relato até o fim, pois se preparavam para sair. Ivan seguiu as prescrições, observou suas funções corporais e passou a se interessar por relatos de doenças parecidas. A dor não cedeu. Consultou outros médicos, recebeu diagnósticos diferentes e tentou, escondido, um tratamento homeopático. Chegou a ouvir com interesse uma história de cura por imagens religiosas, mas se assustou com a própria disposição de acreditar nela.
Embora tentasse se convencer de que melhorava, perdeu o apetite e as forças. Qualquer discussão, dificuldade profissional ou derrota nas cartas o levava ao desespero. Prascóvia afirmava que ele não cumpria o tratamento e culpava suas escolhas pela demora da recuperação. No tribunal, Ivan suspeitava que já pensavam em sua vaga, enquanto as brincadeiras dos colegas o feriam. Numa partida, a dor o distraiu e o fez errar uma jogada importante, cujo resultado já não lhe interessava. Percebeu que sua presença entristecia os amigos. Sozinho depois do jogo, enfrentou a dor, a insônia e a sensação de que ninguém compreendia o que estava acontecendo com ele.
Capítulo 5. A mudança na aparência e a descoberta da morte
Antes do Ano Novo, o cunhado chegou e não conseguiu esconder o espanto ao vê-lo. Ivan se examinou no espelho, comparou a própria imagem com um retrato antigo e percebeu uma mudança enorme. Depois, ouviu o visitante dizer a Prascóvia que ele parecia um homem morto. Assustado, procurou Piotr e foi com ele a outro médico. A explicação sobre um pequeno problema no intestino lhe devolveu a esperança de que bastaria corrigir o funcionamento dos órgãos para recuperar a saúde.
Passou a noite mais animado, mas, ao deitar, a dor retornou. Compreendeu então que o problema não se limitava ao rim ou ao intestino: sua vida estava acabando. Pensou no desaparecimento de sua própria existência e se revoltou ao ouvir a família conversando e cantando. No escuro, tentou acender uma vela e derrubou objetos, dominado pelo medo. Prascóvia entrou, arrumou o quarto e sugeriu chamar novamente o médico famoso. Ivan recusou. Não lhe explicou o que sentia, pois estava convencido de que ela não entenderia, e recebeu com ódio o beijo de boa-noite.
Capítulo 6. Caio é mortal: a luta impossível contra a ideia da própria morte
Ivan sabia que estava morrendo, mas não conseguia compreender que isso pudesse acontecer com ele, uma pessoa com lembranças e sentimentos tão particulares. Recordou um exemplo de lógica aprendido na juventude, que sempre lhe parecera inaplicável à própria vida:
Caio é um homem, os homens são mortais, logo Caio é mortal, parecera-lhe, durante toda a sua vida, correto somente em relação a Caio, mas de modo algum em relação a ele.
Tentou se refugiar no trabalho, mas a dor interrompia as sessões e o fazia errar. Também procurou distração cuidando dos móveis. Nada durou: a doença reaparecia em seu pensamento, e ele voltava ao escritório para enfrentar sozinho a certeza da morte.
Capítulo 7. Guerássim, o único que não mente, e o tormento da mentira
No terceiro mês da doença, Ivan dormia pouco, recebia ópio e morfina e precisava de ajuda para suas necessidades. Guerássim limpava o vaso sem demonstrar repulsa e o levantava com cuidado. Quando o criado sustentou suas pernas, Ivan sentiu alívio e passou a pedir que as mantivesse sobre os ombros, às vezes por noites inteiras. A força e a alegria do jovem, que nos outros lhe causavam ressentimento, o tranquilizavam. Fora desse convívio, continuava cercado por uma situação que o atormentava:
O sofrimento maior de Ivan Ilitch provinha da mentira, aquela mentira por algum motivo aceita por todos, no sentido de que ele estava apenas doente e não moribundo...
Guerássim reconhecia que todos morreriam e ajudava por compaixão, sem esconder a gravidade do caso. Ivan desejava ser consolado como uma criança, mas tinha vergonha de pedir carinho. Diante dos colegas, ainda assumia o rosto sério do juiz e discutia assuntos profissionais. A mentira dos outros e a sua própria tornavam os últimos dias mais penosos.
Capítulo 8. Um dia de mentiras: as consultas médicas e a ida da família ao teatro
Numa manhã, depois da saída de Guerássim, outro criado abriu as cortinas e arrumou o quarto. Para Ivan, os dias já não tinham diferença: havia sempre dor, angústia e medo. Pediu o relógio, tomou um remédio sem acreditar que ajudaria e aceitou chá. Ao se lavar, assustou-se com o rosto no espelho e evitou olhar o corpo durante a troca de camisa. A breve sensação de frescor desapareceu assim que começou a beber. Queria companhia, mas sabia que muitas visitas pioravam seu sofrimento.
O médico chegou animado e realizou os exames habituais. Prascóvia entrou, censurou o marido por não seguir as recomendações e criticou o costume de manter as pernas elevadas. Ela também chamara um especialista, que discutiu com o primeiro médico questões sobre o rim e o intestino. Ao perguntar se poderia sarar, Ivan recebeu uma resposta incerta, mas suficientemente esperançosa para se alegrar por pouco tempo. Logo a dor voltou. Deram-lhe uma injeção, e ele perdeu a consciência até perto do anoitecer.
À noite, a mulher, a filha e o pretendente se prepararam para ir ao teatro. O filho também apareceu, assustado e compadecido; Ivan sentiu que o menino o compreendia. Os visitantes falaram da atriz e discutiram um binóculo, até perceberem o olhar do doente e se calarem. A filha anunciou que estava na hora de partir. Quando saíram, Ivan se sentiu livre da conversa fingida, mas continuou com a mesma dor e o mesmo medo. Pediu que mandassem Guerássim para ficar com ele.
Capítulo 9. O saco negro e o doloroso reexame da vida passada
Depois de tomar ópio, Ivan teve a impressão de que o empurravam para dentro de um saco negro e estreito. Ao despertar, encontrou Guerássim sustentando seus pés. Mandou-o descansar e chorou sozinho, perguntando por que sofria. Ao escutar seus próprios pensamentos, percebeu que queria viver como antes. Repassou os momentos felizes, mas apenas a infância conservou uma alegria verdadeira. A vida posterior lhe pareceu cada vez mais vazia:
Como se eu caminhasse pausadamente, descendo a montanha, e imaginasse que a estava subindo. Foi assim mesmo. Segundo a opinião pública, eu subia a montanha, e na mesma medida a vida saía de mim...
O casamento, o trabalho e as preocupações financeiras perderam o valor que antes tinham. Suspeitou que não vivera como deveria, mas rejeitou a possibilidade: julgava ter feito tudo corretamente. Continuou perguntando por que precisava sofrer e morrer.
Capítulo 10. A solidão no divã, as recordações da infância e a queda sem fim
Duas semanas depois, Ivan já não se levantava do divã e permanecia voltado para a parede. Alternava a esperança de corrigir um órgão doente com a certeza de uma morte inevitável, cada vez mais real. Na solidão, voltava do presente ao passado, até chegar à infância. Um alimento ou o revestimento do divã despertavam lembranças de sabores, brincadeiras, castigos e cuidados maternos. Quanto mais recuava, mais vida e bondade encontrava. Comparou sua existência a uma pedra que caía com velocidade crescente. Queria compreender a finalidade dos sofrimentos, mas continuava incapaz de admitir que sua vida, tão regular e aprovada pelos outros, pudesse ter sido conduzida de maneira errada.
Capítulo 11. A comunhão e a suspeita de que a vida inteira foi errada
O pretendente pediu a filha em casamento, mas Ivan piorou antes que a mulher lhe desse a notícia. Pediu que o deixassem morrer em paz e recusou o médico. Ao recordar o rosto bondoso de Guerássim, começou finalmente a considerar uma possibilidade que antes sempre afastara:
E o que será se realmente toda a minha vida, a minha vida consciente, tiver sido outra coisa? Tentou defender tudo isto perante si. E de repente sentiu toda a fraqueza daquilo que defendia.
Viu nos outros os mesmos hábitos pelos quais vivera e já não conseguiu justificá-los. Seus tormentos aumentaram. Por insistência de Prascóvia, aceitou confessar-se e comungar. Sentiu um alívio breve e voltou a esperar uma recuperação. Porém, quando a mulher perguntou se estava melhor, sua presença lhe recordou toda a falsidade que percebera. Virou-se e gritou para que todos saíssem.
Capítulo 12. Os três dias de gritos, a luz no fundo da fossa e a morte
Ivan gritou durante três dias, lutando contra o saco negro e defendendo a correção de sua vida. Quando o filho beijou sua mão e chorou, sentiu pena dele e da mulher. Admitiu que vivera de modo errado, mas quis poupar os dois e pedir perdão. Nesse instante, viu luz, aceitou a dor e não encontrou mais o medo da morte. Sentiu alegria e libertação. Para os presentes, a agonia ainda continuou por duas horas. Ao ouvir alguém anunciar o fim, entendeu que a morte terminara e já não existia. Interrompeu a respiração, ficou imóvel e morreu.